Competição para uma nação inovadora

Publicado no Portal Profissional e Negócios (www.profissionalenegocios.com.br - 5/2014)


A China e a Coreia do Sul apresentaram grande evolução produtiva na última década. Desenvolveram algoritmos, softwares e investiram de forma consistente e continua em educação. Ao compararmos a China da década de 90 com a de hoje, poderemos concluir que, de forma estruturada, ela aprendeu com a terceirização dos norte-americanos. Conseguiu, além de terceirizar mão-de-obra, melhorar muito suas condições de produtividade. O resultado disso é que, em 2011, o número de patentes da China e Coreia do Sul foi de 400 mil e 170mil, respectivamente, contra apenas 20 mil do Brasil.

Conforme estudos do Insper, os países com intervenção e protecionismo pouco investem em inovação e, por incrível que pareça, o que em princípio pode ser considerado uma ajuda – o protecionismo – acaba significando um prejuízo intelectual irreparável, principalmente nas áreas de tecnologia.

Quando consideramos os setores da agricultura e da medicina, em que trabalhamos com sistemas abertos e de proteção internacional, precisamos nos destacar e inovar. Prova disso é que boa parte das 20 mil patentes de 2011 foram voltadas a essas áreas de estudo. 

O resultado do modelo brasileiro de forte proteção ao mercado empresarial é o desenvolvimento de diversos oligopólios. Sua regulamentação por meio de leis e normativas institucionais só potencializa o modelo mental competitivo vigente, no qual os regulamentos e regras são sempre avaliados sob a ótica de como não serem implementados ou observados. Num efeito similar ao dos sistemas de vírus e de antivírus na computação, o governo regula e as empresas inobservam, o governo aumenta a regulação e as empresas ampliam a inobservância. Existiria outro modelo?

Analisando os mercados regulados, seríamos superficiais ao concluir que a regulação aumenta a competitividade. O que realmente notamos, na prática, é a concentração de poder, a ampliação da força dos oligopólios e o desenvolvimento de novas regras de convivência que passam a existir entre os participantes para utilizar a regulamentação no sentido de controlar ainda mais a entrada de novos players e, consequentemente, de inovação. Isso se complica ainda mais quando o governo, de forma direta ou indireta, se beneficia desse modelo no curto prazo, seja por meio da arrecadação de impostos, seja por meio de aparente bem à comunidade como, por exemplo, com a redução das tarifas de energia e das taxas de juros – medidas efêmeras ou populistas com pouca base de fundamentação mercadológica.

O fato é que o modelo mental brasileiro procurará manter o “status quo”. Outro exemplo são os benefícios corporativos. Desenvolvidos com ênfase em bem-estar e motivação dos colaboradores, a gestão desses benefícios acaba por responder por 76% dos custos globais das áreas de recursos humanos das empresas. Pesquisa mostra que 50% desses custos poderiam ser reduzidos se os fornecedores desenvolvessem sistemas mais inovadores. Ora, se não temos competitividade, e apenas oligopólios, como iremos reduzir o tempo gasto com departamento pessoal, se não geramos um ambiente de inovação e novas oportunidades? Como iremos assegurar que desenvolveremos pessoas se investimos 76% do tempo em atividades operacionais de RH com quase zero de valor agregado?

Enfim, como iremos melhorar o país se a nova geração está entrando no mercado de trabalho e se beneficiando de programas antigos de benefícios e com quase nada de inovação e customização? Como fazer?

Talvez, se os indicadores de inovação, crescimento e empregos fossem melhores quando correlacionados com os de outros países, o modelo realmente estaria correto. Entretanto, o que percebemos é um modelo de competição ultrapassado, com pouca inovação (patentes) e extremamente concentrado.

O fato é que precisamos, em paralelo à reforma do modelo educacional, reformular o modelo de regulação – ambos com mais ênfase em inovação e competitividade. O que efetivamente nos permitirá seguir essa linha será a mudança do comportamento empresarial brasileiro que, ao invés de estudar como aumentar a concentração do poder econômico, deveria pensar em como se diferenciar por meio da inovação, da descoberta de novos mercados ou da inovação em mercados existentes, e não concentrar tempo estruturando barreiras de entradas ou legislações que apenas ampliarão a concentração do poder econômico e prejudicarão a economia. Precisamos de mais desbravadores e de menos exploradores.


Alexandre Leite*