Inovar é correr riscos

Julho/2014

Os gênios estão muito próximos de serem confundidos com tolos e vice-versa. Quando dá os resultados esperados, a genialidade é reconhecida e valorizada. Mas, na maioria dos casos, durante o processo de desenvolvimento ou diante dos diversos fracassos, os gênios são taxados de loucos. O desafio das empresas é, em meio à importância cada vez maior da velocidade nos processos atuais, reconhecer que uma dose de risco é fundamental para a inovação e, consequentemente, para o sucesso.

Na prática, o nível de dificuldade da maioria das conquistas é diretamente proporcional à solidão das decisões e dos percursos necessários para atingi-las. Ou seja, na maioria dos casos, à medida que uma decisão começa a ser implantada, iniciam-se as dificuldades, e essas dificuldades fazem com que cada vez menos apoiadores existam. Quando finalmente a decisão se realiza, seja de uma maneira vitoriosa ou de um fracasso, o timoneiro está praticamente sozinho: é o gênio visionário da vitória ou o tolo da derrota.

Charles Goodyear, inventor da borracha vulcanizada no início do século XIX, é um dos maiores exemplos histórico nesse sentido. A febre da borracha dos anos 1830 terminou quase tão rápido quanto começou. No início, a população norte-americana ficou extremamente entusiasmada com a nova goma à prova d´água proveniente do Brasil. Diversas fábricas abriram para atender a demanda. Rapidamente, no entanto, veio o desencanto: o material ficava duro como pedra no inverno e se tornava uma cola nos meses de verão. Curioso sobre a nova goma, Goodyear começou a pesquisar o assunto incansavelmente a partir de 1934. Sem apoio de ninguém, penhorou os poucos bens da família, viveu na extrema pobreza e foi preso várias vezes (devido a dívidas) enquanto trabalhava na realização de seu sonho em torno do “primeiro e mais versátil dos ‘plásticos’ modernos”. Do sonho à borracha vulcanizada, foram quase 10 anos no caos.

Já a desastrosa derrota da seleção brasileira por 7 a 1 da campeã mundial Alemanha pode ser colocada em eixo contrário: caso os jogadores escalados pelo técnico tivessem feito dois ou três gols na partida e evitado o resultado negativo, o nível de risco aplicado ao esquema tático e a manutenção de jogadores que há alguns jogos não tinham tido bom desempenho teriam sido caracterizados como ações geniais.

Na vida corporativa, assim como na Copa do Mundo, não temos necessariamente paciência nem condições de dar a volta por cima depois de uma derrota desse tipo. Por outro lado, apenas correndo riscos é que conseguimos inovar. Cabe às empresas – e particularmente aos seus gestores – ter algum espaço para viabilizar o novo. Talvez não por tanto tempo como foi o caso de Goodyear, nem de maneira tão vexaminosa, como no caso da seleção brasileira. Mas algum espaço para o erro temos de ter nas operações, sob risco de errarmos muito mais.

 

* Alexandre Leite é diretor-executivo da Ecobenefícios.